Estava devendo este artigo sobre os vários estilos derivados da trilogia do Sprawl do William Gibson. Mas antes de partir para seus derivados, um resumo do que é cyberpunk, numa tradução livre:
“
Personagens clássicos do cyberpunk eram solitários marginalizados e alienados que viviam a borda da sociedade geralmente em futuros distópicos, onde a vida diária era afetada pela rápida mudança tecnológica, por um conjunto de dados computadorizados onipresente e pela modificação invasiva o corpo humano” (Person, em Slashdot).
Outra característica marcante no trabalho de Gibson é a presença de personagens femininas fortes. Muito raramente há donzelas em perigo; quando há, é apenas temporário. Inversamente, vários personagens masculinos estão em posição de apoio, não se envolvendo diretamente na ação ou mesmo não se pondo em risco de morte. E essa característica foi seguida por vários dos copia…seguidores do Movimento Cyberpunk
Dos sistemas de RPG neste estilo cyberpunk, o Cyberpunk 2020 é o mais conhecido, sendo inclusive reconhecido pelo próprio Gibson como representante da cultura cyberpunk. O GURPS Cyberpunk também dá bom suporte, mesmo que suas regras de imersão na rede sejam, no mínimo, confusas.
Dito isso, avancemos para os estilos que surgiram a partir dessa premissa.
Pós-Cyberpunk
O Pós-Cyberpunk surgiu como uma resposta à proposta inicial do cyberpunk. Foi iniciado por Bruce Sterling com seu Piratas de Dados (Islands in the Net, no original) e um das melhores obras neste estilo é o Ghost in the Shell de Masamune Shirow. Essa última obra ganhou o título traduzido de “Fantasma do Futuro” (aaaaargh!), que é dose por vários motivos. E nos quadrinhos/comics, Transmetropolitan de Warren Ellis e Darick Robertson mostra um jornalista gonzo como personagem principal.
A diferença entre este estilo e o anterior é que o mundo distópico do cyberpunk clássico não é tão evidente. A imersão na informação e a modificação corporal invasiva ainda são o foco, mas o foco é mais humano; uma questão bastante presente é a do cyborg se perguntando se ainda pode se considerar humano depois de tantos implantes e modificações. Este estilo muitas vezes de mistura aos que vou explicar a seguir.
Entre os RPGs, o pós-cyberpunk é mais um estilo de narrativa do que um sistema de regras. Mesmo assim, alguns sistemas se prestam melhor à essa tarefa, como Mago, a Ascensão (não conheço o Despertar bem o suficiente), especialmente os suplementos Guia da Tecnocracia, Demon Hunter X e os livros sobre os Adeptos da Virtualidade, a Iteração X e os Progenitores. Por que os Progenitores? Continue lendo.
Antes de avançar ao próximo, menciono o Cyberprep. Formada pela junção das palavras cyberpunk e “preppy”, sendo esta última o encurtamento de “preparatory”, as escolas preparatórias para universidades do nordeste estadunidense. Resumindo o palavreado, estou falando de mauricinhos e patricinhas. Ou melhor, cybermauricinhos e cyberpatricinhas. Neste subestilo do pós-cyberpunk, não há distopia; é apenas uma “Malhação” misturada com cyber, sem o punk; tá, chega de embrulhar o estômago.
Biopunk
Lembram que citei os Progenitores de Mago, a Ascensão? É neste estilo que eles se encaixam. O centro aqui não é na tecnologia de informação, mas na biologia. Nada de cyber implantes, neste estilo a engenharia genética e experimentação humana substituem os implantes invasivos. Não que ambas não sejam invasivas, mas o são em outro sentido.
Na minha opinião, Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, mesmo não sendo necessariamente cyberpunk, apresenta uma ótima ambientação biopunk, com seu governo totalitário, onde todos são moldados desde nascença para suas funções, característica comum em obras biopunk. Megacorporações se utilizando de biotecnologia para o lucro e controle social também é um tema bastante comum.
Nos RPGs, Mago, a Ascensão trata bem do assunto, principalmente nos suplementos aos Progenitores, enquanto o GURPS Bio-Tech é mais técnico, como o esperado. Infelizmente não conheço outros sistemas que tratem deste assunto.
Steampunk
Mesmo que este nome só tenha surgido por volta de 1987, este estilo deve muito a Julio Verne e outros autores do século 19. Muitos dos que acompanham este estilo consideram The Difference Engine (sem título em português) de Gibson e Sterling como a obra fundamental do steampunk, esquecendo que suas raízes são até mais antigas do que o próprio cyberpunk.
Obviamente, este estilo não é futurista como os anteriores, mas retrofuturista e anacrotecnológico. Retrofuturista porque é um passado histórico misturado com elementos atuais ou futuros. Anacrotecnológico, pois possui equipamentos modernos ou futuros construídos com um recursos do passado. No caso, tecnologia a vapor.
E este talvez seja o estilo derivado mais famoso do cyberpunk, inclusive sendo até mais famoso que este último. Não é difícil encontrar artigos sobre o assunto e objetos modificados com uma aparência ao estilo Vitoriano, como o laptop ao lado. Isso somado às pesquisas e descobertas do período, feita por Tesla, Darwin, Pasteur e Babbage, entre outros. O último é talvez a maior inspiração deste estilo, pois vários livros do Steampunk pressupõem que ele conseguiu finalizar sua máquina diferencial, alterando o rumo da história ao criar um computador mais de 100 anos antes do que deveria ter acontecido.
Castelo Falkenstein é o principal (e único digno de nota em português) representante dos RPGs Steampunk, mesmo sendo um tanto misto. Outros, como GURPS Steampunk, também existem, mas simplesmente não chamam tanta atenção.
A Liga dos Cavaleiros Extraordinários é uma comic e filme ambientada num mundo steampunk. Se puder ler a comic, melhor.
Clockpunk
É tão semelhante ao Steampunk que às vezes é considerado como parte dele. Aqui a tecnologia se baseia na mecânica dos relógios ao invés do vapor.
Dieselpunk
Também tem semelhanças com o Steampunk, mas cobre o período histórico dos anos de 1920 até 1950. No lugar das fornalhas estão os motores de combustão interna, comumente chamados de motores a gasolina e motores a diesel.
O Dieselpunk tem influências do pup, do noir (como o próprio Cyberpunk); temas como o aumento do poder do petróleo, a tecnocracia, assim como a produção em massa, a Depressão, o constante estado de guerra. Nesse sentido, é mais semelhante ao Cyberpunk do que ao Steampunk.
Ainda é um tema pouco explorado, se comparado aos dois estilos que lhe deram origem.
Entre as obras consideradas Dieselpunk, estão o filme Sky Captain and the World of Tomorrow, o filme de animação 9 (de 2009) e o jogo Return to the Castle Wolfenstein.
Outros estilos
A maioria dos estilos a seguir são uma mistura de outros estilos ao cyberpunk e nem sempre são considerados como cyberpunk.
Elfpunk: Onde criaturas míticas vivem num ambiente urbano. Diferente da fantasia urbana, este se limita a fadas e elfos. O suplemento Urban Arcana do D20 Modern seria fantasia urbana e não elfpunk.
Mythpunk: Parte ficção mítica/folclórica, parte cyberpunk, misturando os dois.
Nowpunk: Cyberpunk ambientado na época atual, com os eventos da atualidade misturados ao cyberpunk.
Splatterpunk: Gênero do horror de sangue e tripas, misturando ao Cyberpunk. Sinceramente não é necessário muito esforço do narrador para colocar isso nos jogos. A mente perturbada dos jogadores já garante parte do serviço. Sim, este estilo pode muito bem sair pela culatra. Sei disso pessoalmente.
E seguindo a sugestão dos comentários temos mais um:
Cthullupunk: Misturando os Mythos de Cthullu do Lovecraft com o Cyberpunk. O CthulluTech, assim como o GURPS Cthullupunk são as minhas principais fontes. O fato de ter implantes apenas aumenta um pouco a chance de sobrevivência dos personagens… ou não. Como em Call of Cthullu da Chaosium, o destino mais provável dos personagens é o sanatório, isso quando não viram lanchinho de algum horror cósmico.
Por enquanto é só. Talvez eu consiga juntar vontade para artigos mais específicos sobre estes temas. Algo como os arquétipos típicos dos personagens de *punk.
Technorati Marcas:
cyberpunk,
rpg
Links:
Dieselpunk (blog)
Dieselpunks (blog)
Laptop Steampunk na Wired
Shunya Yamashita (artista)
Wikipedia: Cyberpunk Derivatives (artigo em inglês)
Edit: O Bogger sumiu com quase toda formatação do Writer, fora essa reforma ortográfica distorcendo o meu português. E uma correção, ao invés de Cthullupunk, o livro é CthulluTech.